Mostrando postagens com marcador cuidado de si. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cuidado de si. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 10 de março de 2015

Texto de apoio para a investigação no Mosteiro Zen


O cuidado de si


Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me,
Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

Fernando Pessoa


Na obra A Hermenêutica do Sujeito, Foucault nos convida a pensar na noção do ‘cuidado de si mesmo’, a qual, para os gregos, designava-se por epiméleia heautoû e, para os latinos, cura sui[1].
Apesar dos múltiplos sentidos que marcaram a epiméleia heautoû, três pontos característicos e gerais devem ser lembrados acerca do cuidado de si: atitude geral, atenção interior e ação transformadora. Como atitude geral é uma forma de se relacionar consigo mesmo, com os outros e com o mundo, um comportamento orientado por uma disposição interior. Como atenção é um deslocamento do olhar, do foco, do interesse para o si mesmo, um estado de alerta aos próprios pensamentos. Finalmente como ação, a epiméleia heautoû se refere às práticas, exercícios ou técnicas pelas quais nos modificamos.
Se nos detivermos no cuidado de si como técnica que possibilitava o acesso a verdade, ele já estava disseminado por toda a Grécia arcaica e também em outras culturas, nos ritos de purificação, imprescindíveis para o contato com o que os Deuses tinham a dizer; nas técnicas de concentração da alma, que dada a sua grande mobilidade, evitavam sua dispersão, fixando-a num modo de existência; no retiro em si mesmo ou anakhóresis, forma de desligar-se das sensações do mundo exterior; e nas práticas de resistência, que eram um desdobramento da anakhóresis que possibilitava suportar provações dolorosas e tentações difíceis.
O pitagorismo, muito antes de Sócrates, trabalhou com muitas dessas práticas, como na purificação para o sonho, no qual encontramos práticas preparatórias para o contato com o mundo divino, mundo da verdade, como se entendia, entrementes, o sonho. Essa purificação poderia ocorrer mediante músicas, perfumes ou, ainda, pelo exame de consciência. Ao lembrarmos nossas faltas cometidas durante o dia, delas nos livramos. Outro exemplo são as técnicas de provação, como aquelas em que, após praticar uma série extenuante de exercícios, recusa-se uma refeição farta colocada à nossa frente, e se medita sobre ela.
Sócrates é o encarregado pelos Deuses de lembrar e incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Na Apologia de Sócrates, sabemos por meio de Platão, que ao proclamar o cuidado de si em Atenas, ele abre mão de uma série de situações consideradas vantajosas, como fortuna e cargos de poder e que agindo assim, conseguiu despertar, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono. Portanto o cuidado de si é a realidade mais admirável, pois proporciona algo equivalente a uma vida consciente, ativa e desperta.
Como relatado em O Banquete, Sócrates dominava a anakhóresis, prática do retiro em si mesmo, bem como a técnica de resistência. Andava descalço sobre o gelo com mais facilidade do que faziam seus companheiros calçados, e podia manter-se imóvel durante todo um dia e uma noite. Tudo isso parece indicar a sua maestria nas técnicas do cuidado de si.
O termo “anachóresis”, no contexto das práticas de si mesmo, significa um ausentar-se do mundo no qual alguém se encontra imerso, interromper o contato com o mundo exterior, não sentir sensações, não se preocupar com o que passa à nossa volta, fazer como se não se visse o que acontece. Uma ausência visível aos outros.
Como uma técnica complementar da anachóresis era desenvolvida uma prática conhecida como escritura  de si mesmo: os hypomnémata.
Em um sentido técnico, os hypomnémata podiam ser livros de contas, registros públicos, cadernos de notas pessoais. Sua utilização como “livros de vida”, “guias de conduta” era frequente entre o público culto. Neles, anotavam-se as citações de obras famosas, exemplos de conduta, reflexões, raciocínios. Eles constituíam a memória material das coisas lidas, escutadas ou pensadas, um tesouro acumulado para a releitura e a meditação. Esse material servia para a composição de tratados mais sistemáticos nos quais se apresentavam os argumentos e os meios para lutar contra um vício ou para superar os obstáculos e as desgraças da vida.
No Primeiro Alcibíades, vemos, então, surgir, a partir do cuidado de si duas questões. A primeira diz respeito ao sujeito: o que é o si mesmo? E a segunda: qual é a tékhne para um bom governo? “Qual o eu de que devo ocupar-me a fim de poder, como convém, ocupar-me com os outros a quem devo governar?” Resumindo as duas perguntas: o que é o si mesmo, e o que é o cuidado necessário para governar os outros?
Para responder a essas questões, seguiremos as analogias de Sócrates, nas quais diferenciamos os sujeitos e aquilo do qual se servem. Podemos distinguir, na arte da sapataria, os instrumentos, como o cutelo, e o sapateiro. O mesmo verifica-se na música, na qual distinguimos a cítara de seu músico. Mas, e quando agitamos a mãos? Temos aí as mãos e aquele que se serve delas, o sujeito. O corpo não pode servir-se do corpo, o elemento o qual se serve das mãos, dos olhos, da linguagem e de todo o corpo só pode ser a alma. Servir-se este que, em grego khrêsthai/khrêsis, indica um comportamento, uma atitude, relações com os outros e consigo mesmo, mas que não é instrumental, nem substancial, mas sim transcendente e subjetiva.
Ao concebermos a alma enquanto sujeito, o cuidado de si passa a distinguir-se em três outros tipos de atividades. Primeiro, Foucault enuncia o exemplo do médico: quando o médico adoece e aplica sobre si sua arte médica, podemos dizer que ele se ocupa consigo mesmo? A resposta é não, pois ele está se ocupando com o corpo, e não com o si mesmo da alma. A segunda atividade é a economia: quando um proprietário ocupa-se com suas posses, seus bens e sua família, ele está se ocupando consigo mesmo? Não, ele está se ocupando com o que é dele, e não consigo mesmo. Os pretendentes de Alcibíades ocupavam-se com o próprio Alcibíades? Da mesma forma que nos exemplos anteriores, a resposta é negativa, haja vista que eles estavam ocupados com a beleza de seu corpo. Na verdade, quem cuida de Alcibíades é Sócrates, pois apenas ele cuida de sua alma. Sócrates é muito mais que um professor sofista, é mais que um pedagogo, é o mestre da epiméleia heuatoû, pois:

Diferente do professor, ele não cuida de ensinar aptidões e capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio (FOUCAULT, 2004a, p. 73).

Sendo assim: o que é o ‘eu’ com o qual é preciso ocupar-se? A alma. O que é ocupar-se consigo mesmo, o que é o cuidado de si? É conhecer a si mesmo, gnôthi seautón. Foucault nos diz que o aparecimento dessa referência ao “conheça a si mesmo”, no Primeiro Alcibíades, é totalmente diferente de outras duas anteriores. Enquanto a primeira surge como prudência, para que Alcibíades relacione suas ambições com suas capacidades, isto é, para que ele perceba suas limitações e a importância em ocupar-se consigo mesmo; a segunda ressurge para responder quem é o si mesmo com que se deve ocupar. E, finalmente, agora o gnôthi seautón emerge de maneira direta e decisiva, para dizer que o cuidado de si é o conhecimento de si mesmo. E este momento afetará toda a cultura greco-romana. A partir daí, surge a justificativa para que o cuidado de si, ou seja, para que todas as práticas espirituais, sejam organizadas em torno do “conheça a ti mesmo”. Apesar disso, em Platão, o conhecimento de si é apenas um aspecto extremamente importante do cuidado de si, relação esta que será revertida alguns séculos depois pelo neoplatonismo.
E como devemos nos conhecer? Para chegar a esta resposta, Sócrates parte do exemplo do olho e do espelho. Quando nos vemos no olho de alguém, semelhante a nós, vemo-nos a nós mesmos. Mas este si mesmo que se vê não é graças ao olho, mas à visão, a qual é também no olho do outro. Para a alma ver-se, é preciso que se volte para um elemento de sua própria natureza. E qual é a natureza da alma? O pensamento e o saber. Sendo divinos o pensamento e o saber, a alma deve voltar-se para o divino, com o fim de conhecer-se a si mesma e receber a sabedoria, sophrosýne. De maneira que, a alma conhecerá a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, e saberá, enfim, governar a cidade.
No final do diálogo, Alcibíades compromete-se a ocupar-se com a justiça, pois ocupar-se consigo mesmo ou com a justiça, são equivalentes, já que tudo surgiu a partir da preocupação em se tornar um bom governante. Infelizmente isto não se deu, e é o mesmo Alcibíades que, já mais velho, no O Banquete, lamenta ao dizer que acabou envolvendo-se com os assuntos políticos de Atenas em vez de cuidar de si mesmo.
A questão do cuidado de si implica uma atitude ou um conjunto de atitudes, mediante as quais o sujeito transforma-se a si mesmo e que estão relacionadas a uma conversão do olhar, ou seja, uma mudança no foco da atenção, que se desloca daqueles valores considerados importantes pela maioria (ói polloí) em direção àqueles que são cuidados por poucos (ói prôtoi), tais como a alma, o pensamento e a verdade.

Tal busca, empreendida por Foucault em vista de um princípio tão antigo, como o cuidado de si, suas técnicas e suas transformações, pode gerar uma grande contribuição para entender o sujeito moderno, a história da subjetividade e suas práticas e mesmo a educação como construtora de determinado tipo de sujeito.

"Nossa vida é o que nossos pensamentos fazem dela".
(MARCO AURÉLIO, Meditações, IV, 3)




REFERÊNCIAS
Picoli, Arlindo Rodrigues.  Emancipação e cuidado de si: impactos sobre a pratica educativa desde uma perspectiva foucauldiana. UERJ, 2008.






[1] Literalmente, cuidado de si. Em latim, cura refere-se a uma série de coisas distintas, mas que mantém o sentido de cuidar: cuidado e diligência, mas também, direção, encargo, administração, cuidados de um doente, tratamento, trabalho, obra de espírito, obra literária, livro, causa de cuidado, inquietação, cuidados de amor, tormentos de amor, amor, guarda, guardador, vigia. (FERREIRA, s.d. p. 315).

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Mosteiro Zen: pesquisa bibliográfica

Breve histórico do Mosteiro Morro da vagem

O monteiro está localizado em Ibiraçu, nome que na língua dos índios tupiniquins, significa "Arvore Grande".
Esse nome se dá por causa da grande quantidade de árvores nativas de grande porte no alto do morro da vagem, mas que na década de 70 acabou sendo atacada por fazendeiros para que plantassem café, que era uma grande fonte de renda nessa época. Pouco sobrou da vasta vegetação original de Mata Atlântica. 
O ponto mais alto do cume era de difícil acesso, mas lá possuía uma intensa beleza, o alto do cume foi alcançado pelo mestre Ryoham Shingu, que foi o fundador do Mosteiro Zen em 1974.
Como a  cultura japonesa era pouco conhecida por aqui naquela época, poucos brasileiros procuravam o zen, ainda mais por seu difícil acesso ao cume.
Foram muitas dificuldades enfrentadas, como os templos ainda rústicos, mas que foram vencidas no decorrer do tempo. Assim, uma das principais dificuldades superadas foi o calçamento da estrada até o alto do cume, pois isso influenciava o acesso das pessoas na  busca dessa prática.
 
Um dos grandes projetos implantados pelo mosteiro foi o projeto ambiental de recuperação e conservação das matas. Milhares de árvores nativas foram plantadas e esse projeto teve reconhecimento nacional, trazendo conquistas para o mosteiro.



Mente Sentada

As pessoas que buscam o zen,  buscam a estudar a si próprias, esquecendo totalmente o mundo fora do mosteiro. É  realizada com humor, disciplina, e concentração vivendo uma vida simples.
Uma frase que os budistas dizem que deve ser trabalhada é “não existe mente sem corpo nem corpo sem mente”, os dois sempre tem que trabalhar em conjunto.

Luan Lucas Gomes Norbau

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Relato de experiência no Mosteiro Zen: Verônica Ardson e Sabrina Maria

No mosteiro Zen Budista as disciplinas são rigorosas, mas sempre são voltadas para a leveza da postura e a liberdade das mente. É necessário, além da disciplina, ter respeito ao próximo, ter paciência, não agir por impulso, não obter nada em excesso, cumprir suas obrigações e conhecer sua espiritualidade. No mosteiro são realizados momentos de meditação, que são uma forma de cuidado de si, pois ao parar para meditar a pessoa observa seu interior, se desliga do mundo exterior de forma que conheça a si mesma, e com isso a pessoa enxerga ela mesma, podendo libertar sua mente ou a conservando como está.



Para cuidar de si, primeiro a pessoa deve conhecer a si mesma, pois estamos em constante mudança no interior da nossa mente. A meditação faz a pessoa se voltar para si mesma, faz ela procurar se entender e trazer a tona seus desejos. Segundo filósofos, algumas pessoas acreditam que nascemos e passamos a vida toda sendo a mesma pessoa. Enganam-se, estamos em constante mudança, sempre conhecendo o nosso interior, construindo novas verdades, mudando o modo de pensar e agir. Conhecendo a si mesmo a pessoa é capaz de provocar mudanças em seu interior, consegue se libertar e ainda assim dar um significado para si mesmo, sendo capaz de entender e cuidar de si em todos os sentidos.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

O Momento Socrático: Cuidado e Conhecimento de Si Mesmo



Arlindo Picoli
Na Apologia de Sócrates, sabemos por meio de Platão, que Sócrates é o encarregado pelos Deuses de lembrar e incentivar os homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao proclamar o cuidado de si em Atenas, ele abre mão de uma série de situações consideradas vantajosas, como fortuna e cargos de poder e que agindo assim, conseguiu despertar, pela primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono. Portanto o cuidado de si é a realidade mais admirável, pois proporciona algo equivalente a uma vida consciente, ativa e desperta.
Como relatado em O Banquete, Sócrates dominava a anakhóresis, prática do retiro em si mesmo, bem como a técnica de resistência. Andava descalço sobre o gelo com mais facilidade do que faziam seus companheiros calçados, e podia manter-se imóvel durante todo um dia e uma noite. Tudo isso parece indicar a sua maestria nas técnicas do cuidado de si.
Quando o “conhece-te a ti mesmo” surge na filosofia, precisamente com Sócrates, aparece como uma aplicação particular de uma regra mais geral: o cuidado de si. No Primeiro Alcibíades, Sócrates só decide abordar Alcibíades porque percebeu que ele não se contenta mais em desfrutar de sua beleza, riqueza e influência; ele quer se tornar um político, ele quer “transformar o privilégio de status, a primazia estatutária em governo dos outros” (FOUCAULT, 2004, p. 44). Sócrates diz que ele deve aplicar seu espírito sobre si mesmo, pois, para ser um político, deve o indivíduo saber as qualidades que possui. Ele deve pensar nos seus rivais de dentro de Atenas, e também nos de fora da cidade, sejam espartanos ou persas. Tanto os rivais de Esparta quanto os da Pérsia tiveram uma educação melhor que Alcibíades, pois ele ficou aos cuidados de um escravo ignorante. Conhecendo-se a si mesmo prudentemente, ele pôde perceber sua inferioridade não só na educação, mas também na riqueza e na incapacidade de ter um saber, uma tékhne a qual compensasse essas diferenças. No diálogo que trava com Sócrates, Alcibíades entende que não é capaz de definir o que é o bom governo da cidade, e admite ser possível que tenha sempre vivido em estado de ignorância. E é neste momento que Sócrates o anima, afirmando, para tanto, que se ele tivesse percebido isto com cinqüenta anos, não seria nada fácil tomar-se a si mesmo em cuidado: epimelethênai sautou, mas ao contrário, ele está justamente na idade certa para isto (FOUCAULT, 2004, p. 47).
No Primeiro Alcibíades, Foucault destaca quatro características do cuidado de si. Partindo de um privilégio, em primeiro, ocupar-se consigo mesmo é condição para governar os outros. Segundo, o cuidado de si mesmo pode compensar a insuficiência na educação, atribuída à ignorância de seu pedagogo, bem como sua educação erótica, fruto do tipo de interesse dos seus amantes, os quais, apenas desfrutaram de sua beleza e não o incentivaram a cuidar de si mesmo. Em terceiro, ele está na idade correta, por não estar mais na mão dos pedagogos e, ademais, na medida em que atingiu determinada idade, seus amantes desinteressaram-se por ele. Aqui, o cuidado de si é “uma necessidade de jovens numa relação entre eles e seu mestre, ou entre eles e seus amantes, ou entre eles e seu mestre e amante” (FOUCAULT, 2004, p. 49). Em quarto, por fim, há a ignorância do objeto. Alcibíades não sabe o objetivo e o fim da concórdia dos cidadãos como atividade política. Por não saber o que é o bom governo, precisa cuidar de si mesmo.



Vemos, então, surgir, a partir do cuidado de si duas questões. A primeira diz respeito ao sujeito: o que é o si mesmo? E a segunda: qual é a tékhne para um bom governo? “Qual o eu de que devo ocupar-me a fim de poder, como convém, ocupar-me com os outros a quem devo governar?” (FOUCAULT, 2004, p. 51). Resumindo as duas perguntas: o que é o si mesmo, e o que é o cuidado necessário para governar os outros?
Para responder a essas questões, seguiremos as analogias de Sócrates, nas quais diferenciamos os sujeitos e aquilo do qual se servem. Podemos distinguir, na arte da sapataria, os instrumentos, como o cutelo, e o sapateiro. O mesmo verifica-se na música, na qual distinguimos a cítara de seu músico. Mas, e quando agitamos a mãos? Temos aí as mãos e aquele que se serve delas, o sujeito. O corpo não pode servir-se do corpo, o elemento o qual se serve das mãos, dos olhos, da linguagem e de todo o corpo só pode ser a alma. Servir-se este que, em grego khrêsthai/khrêsis, indica um comportamento, uma atitude, relações com os outros e consigo mesmo, mas que não é instrumental, nem substancial, mas sim transcendente e subjetiva.
Ao concebermos a alma enquanto sujeito, o cuidado de si passa a distinguir-se em três outros tipos de atividades. Sócrates enuncia o exemplo do médico: quando o médico adoece e aplica sobre si sua arte médica, podemos dizer que ele se ocupa consigo mesmo? A resposta é não, pois ele está se ocupando com o corpo, e não com o si mesmo da alma. A segunda atividade é a economia: quando um proprietário ocupa-se com suas posses, seus bens e sua família, ele está se ocupando consigo mesmo? Não, ele está se ocupando com o que é dele, e não consigo mesmo. Os pretendentes de Alcibíades ocupavam-se com o próprio Alcibíades? Da mesma forma que nos exemplos anteriores, a resposta é negativa, haja vista que eles estavam ocupados com a beleza de seu corpo. Na verdade, quem cuida de Alcibíades é Sócrates, pois apenas ele cuida de sua alma. Sócrates é muito mais que um professor sofista, é mais que um pedagogo, é o mestre da epiméleia heuatoû, pois:

Diferente do professor, ele não cuida de ensinar aptidões e capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio (FOUCAULT, 2004, p. 73).

Sendo assim: o que é o ‘eu’ com o qual é preciso ocupar-se? A alma. O que é ocupar-se consigo mesmo, o que é o cuidado de si? É conhecer a si mesmo, gnôthi seautón. Foucault nos diz que o aparecimento dessa referência ao “conheça a si mesmo”, no Primeiro Alcibíades, é totalmente diferente de outras duas anteriores. Enquanto a primeira surge como prudência, para que Alcibíades relacione suas ambições com suas capacidades, isto é, para que ele perceba suas limitações e a importância em ocupar-se consigo mesmo; a segunda ressurge para responder quem é o si mesmo com que se deve ocupar. E, finalmente, agora o gnôthi seautón emerge de maneira direta e decisiva, para dizer que o cuidado de si é o conhecimento de si mesmo. E este momento afetará toda a cultura greco-romana. A partir daí, surge a justificativa para que o cuidado de si, ou seja, para que todas as práticas espirituais, sejam organizadas em torno do “conheça a ti mesmo”. Apesar disso, em Platão, o conhecimento de si é apenas um aspecto extremamente importante do cuidado de si, relação esta que será revertida alguns séculos depois pelo neoplatonismo. (FOUCAULT, 2004, p. 216).
E como devemos nos conhecer? Para chegar a esta resposta, Sócrates parte do exemplo do olho e do espelho. Quando nos vemos no olho de alguém, semelhante a nós, vemos-nos a nós mesmos. Mas este si mesmo que se vê não é graças ao olho, mas à visão, a qual é também no olho do outro. Para a alma ver-se, é preciso que se volte para um elemento de sua própria natureza. E qual é a natureza da alma? O pensamento e o saber. Sendo divinos o pensamento e o saber, a alma deve voltar-se para o divino, com o fim de conhecer-se a si mesma e receber a sabedoria, sophrosýne. De maneira que, a alma conhecerá a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, e saberá, enfim, governar a cidade.
No final do diálogo, Alcibíades compromete-se a ocupar-se com a justiça, pois ocupar-se consigo mesmo ou com a justiça, são equivalentes, já que tudo surgiu a partir da preocupação em se tornar um bom governante. Infelizmente isto não se deu, e é o mesmo Alcibíades que, já mais velho, no O Banquete, lamenta ao dizer que acabou envolvendo-se com os assuntos políticos de Atenas em vez de cuidar de si mesmo (FOUCAULT, 2004, p. 215).
A questão do cuidado de si implica uma atitude ou um conjunto de atitudes, mediante as quais o sujeito transforma-se a si mesmo e que estão relacionadas a uma conversão do olhar, ou seja, uma mudança no foco da atenção, que se desloca daqueles valores considerados importantes pela maioria (ói polloí) em direção àqueles que são cuidados por poucos (ói prôtoi), tais como a alma, o pensamento e a verdade. quando impera o privilégio do conhece-te a ti mesmo não são mais as ações de transformação do sujeito e as atitudes que têm primazia, mas o conhecimento como ingresso na verdade. É justamente neste momento do cuidado de si em sua relação com o “conheça a si mesmo”, ou seja, o momento socrático, no qual Foucault localiza a passagem da espiritualidade à filosofia. Enquanto a espiritualidade consistia em atividades constituintes do sujeito, a filosofia passou a se ocupar com o acesso à verdade.

REFERENCIAS:

FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica do Sujeito. São Paulo: Martins F ontes. 2004.

PLATÃO.  Alcibíades I e II. Lisboa: Editorial Inquérito. S.d.


EXERCÍCIOS:
Investigue as práticas do zen-budismo e escreva um relato dessa experiência indicando elementos do cuidado de si.