Mostrando postagens com marcador Foucault. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Foucault. Mostrar todas as postagens
terça-feira, 23 de junho de 2015
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
O Momento Socrático: Cuidado e Conhecimento de Si Mesmo
Arlindo Picoli
Na Apologia de Sócrates, sabemos por meio
de Platão, que Sócrates é o encarregado pelos Deuses de lembrar e incentivar os
homens a ocuparem e cuidarem de si mesmos. Ao proclamar o cuidado de si em
Atenas, ele abre mão de uma série de situações consideradas vantajosas, como
fortuna e cargos de poder e que agindo assim, conseguiu despertar, pela
primeira vez, os cidadãos de Atenas de um profundo sono. Portanto o cuidado de
si é a realidade mais admirável, pois proporciona algo equivalente a uma vida
consciente, ativa e desperta.
Como relatado em O
Banquete , Sócrates
dominava a anakhóresis, prática do
retiro em si mesmo, bem como a técnica de resistência. Andava descalço sobre o
gelo com mais facilidade do que faziam seus companheiros calçados, e podia
manter-se imóvel durante todo um dia e uma noite. Tudo isso parece indicar a
sua maestria nas técnicas do cuidado de si.
Quando o “conhece-te
a ti mesmo” surge na filosofia, precisamente com Sócrates, aparece como uma
aplicação particular de uma regra mais geral: o cuidado de si. No Primeiro Alcibíades, Sócrates só decide
abordar Alcibíades porque percebeu que ele não se contenta mais em desfrutar de
sua beleza, riqueza e influência; ele quer se tornar um político, ele quer “transformar o privilégio de status, a primazia estatutária em governo dos outros” (FOUCAULT, 2004, p.
44). Sócrates diz que ele deve aplicar seu espírito sobre si mesmo, pois, para
ser um político, deve o indivíduo saber as qualidades que possui. Ele deve
pensar nos seus rivais de dentro de Atenas, e também nos de fora da cidade,
sejam espartanos ou persas. Tanto os rivais de Esparta quanto os da Pérsia
tiveram uma educação melhor que Alcibíades, pois ele ficou aos cuidados de um
escravo ignorante. Conhecendo-se a si mesmo prudentemente, ele pôde perceber sua
inferioridade não só na educação, mas também na riqueza e na incapacidade de
ter um saber, uma tékhne a qual
compensasse essas diferenças. No diálogo que trava com Sócrates, Alcibíades entende
que não é capaz de definir o que é o bom governo da cidade, e admite ser
possível que tenha sempre vivido em estado de ignorância. E é neste momento que
Sócrates o anima, afirmando, para tanto, que se ele tivesse percebido isto com
cinqüenta anos, não seria nada fácil tomar-se a si mesmo em cuidado: epimelethênai sautou, mas ao contrário, ele está justamente na idade certa para isto
(FOUCAULT, 2004, p. 47).
No Primeiro Alcibíades, Foucault destaca
quatro características do cuidado de si. Partindo de um privilégio, em
primeiro, ocupar-se consigo mesmo é condição para governar os outros. Segundo,
o cuidado de si mesmo pode compensar a insuficiência na educação, atribuída à
ignorância de seu pedagogo, bem como sua educação erótica, fruto do tipo de
interesse dos seus amantes, os quais, apenas desfrutaram de sua beleza e não o
incentivaram a cuidar de si mesmo. Em terceiro, ele está na idade correta, por
não estar mais na mão dos pedagogos e, ademais, na medida em que atingiu
determinada idade, seus amantes desinteressaram-se por ele. Aqui, o cuidado de
si é “uma necessidade de jovens numa relação entre eles e seu mestre, ou entre
eles e seus amantes, ou entre eles e seu mestre e amante” (FOUCAULT, 2004, p.
49). Em quarto, por fim, há a ignorância do objeto. Alcibíades não sabe o
objetivo e o fim da concórdia dos cidadãos como atividade política. Por não
saber o que é o bom governo, precisa cuidar de si mesmo.
Vemos, então, surgir,
a partir do cuidado de si duas questões. A primeira diz respeito ao sujeito: o
que é o si mesmo? E a segunda: qual é a tékhne
para um bom governo? “Qual o eu de que devo ocupar-me a fim de poder, como
convém, ocupar-me com os outros a quem devo governar?” (FOUCAULT, 2004, p.
51). Resumindo as duas perguntas: o que é o si mesmo, e o que é o cuidado
necessário para governar os outros?
Para responder a essas
questões, seguiremos as analogias de Sócrates, nas quais diferenciamos os
sujeitos e aquilo do qual se servem. Podemos distinguir, na arte da sapataria,
os instrumentos, como o cutelo, e o sapateiro. O mesmo verifica-se na música,
na qual distinguimos a cítara de seu músico. Mas, e quando agitamos a mãos?
Temos aí as mãos e aquele que se serve delas, o sujeito. O corpo não pode
servir-se do corpo, o elemento o qual se serve das mãos, dos olhos, da
linguagem e de todo o corpo só pode ser a alma. Servir-se este que, em grego khrêsthai/khrêsis, indica um
comportamento, uma atitude, relações com os outros e consigo mesmo, mas que não
é instrumental, nem substancial, mas sim transcendente e subjetiva.
Ao concebermos a alma
enquanto sujeito, o cuidado de si passa a distinguir-se em três outros tipos de
atividades. Sócrates enuncia o exemplo do médico: quando o médico
adoece e aplica sobre si sua arte médica, podemos dizer que ele se ocupa
consigo mesmo? A resposta é não, pois ele está se ocupando com o corpo, e não
com o si mesmo da alma. A segunda atividade é a economia: quando um
proprietário ocupa-se com suas posses, seus bens e sua família, ele está se ocupando
consigo mesmo? Não, ele está se ocupando com o que é dele, e não consigo mesmo.
Os pretendentes de Alcibíades ocupavam-se com o próprio Alcibíades? Da mesma
forma que nos exemplos anteriores, a resposta é negativa, haja vista que eles
estavam ocupados com a beleza de seu corpo. Na verdade, quem cuida de
Alcibíades é Sócrates, pois apenas ele cuida de sua alma. Sócrates é muito mais
que um professor sofista, é mais que um pedagogo, é o mestre da epiméleia heuatoû, pois:
Diferente do professor, ele não cuida de ensinar aptidões e capacidades a quem ele guia, não procura ensiná-lo a falar nem a prevalecer sobre os outros, etc. O mestre é aquele que cuida do cuidado que o sujeito tem de si mesmo e que, no amor que tem pelo seu discípulo, encontra a possibilidade de cuidar do cuidado que o discípulo tem de si próprio (FOUCAULT, 2004, p. 73).
Sendo assim: o que é
o ‘eu’ com o qual é preciso ocupar-se? A alma. O que é ocupar-se consigo mesmo,
o que é o cuidado de si? É conhecer a si mesmo, gnôthi seautón. Foucault nos diz que o aparecimento dessa
referência ao “conheça a si mesmo”, no Primeiro
Alcibíades, é totalmente diferente de outras duas anteriores. Enquanto a
primeira surge como prudência, para que Alcibíades relacione suas ambições com
suas capacidades, isto é, para que ele perceba suas limitações e a importância
em ocupar-se consigo mesmo; a segunda ressurge para responder quem é o si mesmo
com que se deve ocupar. E, finalmente, agora o gnôthi seautón emerge de maneira direta e decisiva, para dizer que
o cuidado de si é o conhecimento de si mesmo. E este momento afetará toda a
cultura greco-romana. A partir daí, surge a justificativa para que o cuidado de
si, ou seja, para que todas as práticas espirituais, sejam organizadas em torno
do “conheça a ti mesmo”. Apesar disso, em Platão, o conhecimento de si é apenas
um aspecto extremamente importante do cuidado de si, relação esta que será revertida
alguns séculos depois pelo neoplatonismo. (FOUCAULT, 2004, p. 216).
E como devemos nos
conhecer? Para chegar a esta resposta, Sócrates parte do exemplo do olho e do
espelho. Quando nos vemos no olho de alguém, semelhante a nós, vemos-nos a nós
mesmos. Mas este si mesmo que se vê não é graças ao olho, mas à visão, a qual é
também no olho do outro. Para a alma ver-se, é preciso que se volte para um
elemento de sua própria natureza. E qual é a natureza da alma? O pensamento e o
saber. Sendo divinos o pensamento e o saber, a alma deve voltar-se para o
divino, com o fim de conhecer-se a si mesma e receber a sabedoria, sophrosýne. De maneira que, a alma
conhecerá a diferença entre o bem e o mal, entre o verdadeiro e o falso, e
saberá, enfim, governar a cidade.
No final do diálogo,
Alcibíades compromete-se a ocupar-se com a justiça, pois ocupar-se consigo
mesmo ou com a justiça, são equivalentes, já que tudo surgiu a partir da
preocupação em se tornar um bom governante. Infelizmente isto não se deu, e é o
mesmo Alcibíades que, já mais velho, no O
Banquete, lamenta ao dizer que acabou
envolvendo-se com os assuntos políticos de Atenas em vez de cuidar de si mesmo (FOUCAULT,
2004, p. 215).
A questão
do cuidado de si
implica uma atitude ou
um conjunto
de atitudes , mediante
as quais o sujeito
transforma-se a si mesmo
e que estão relacionadas a uma conversão do olhar , ou
seja, uma mudança no foco da atenção ,
que se desloca daqueles valores considerados importantes
pela maioria
(ói polloí) em
direção àqueles
que são
cuidados por
poucos (ói prôtoi), tais como a alma , o pensamento e a verdade . Já quando
impera o privilégio do conhece-te a ti mesmo não são mais as ações de transformação do sujeito
e as atitudes que
têm primazia , mas
o conhecimento como
ingresso na verdade. É justamente neste momento
do cuidado de si em sua relação com o “conheça
a si mesmo”, ou seja, o momento socrático, no qual Foucault localiza a passagem
da espiritualidade à filosofia.
Enquanto a espiritualidade consistia em atividades constituintes do sujeito, a
filosofia passou a se ocupar com o acesso à verdade.
REFERENCIAS:
FOUCAULT, Michel. A Hermenêutica
do Sujeito. São Paulo: Martins F ontes.
2004.
PLATÃO. Alcibíades
I e II. Lisboa: Editorial Inquérito. S.d.
EXERCÍCIOS:
Investigue as práticas do zen-budismo e escreva um relato dessa experiência indicando elementos do cuidado de si.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
O corpo
Foco de uma preocupação constante na nossa época, as abordagens atuais do senso comum sobre o corpo carregam muitas concepções arcaicas desenvolvidas no Ocidente pela Filosofia ou pela Religião. Tais abordagens ultrapassadas trabalham com a cisão entre o corpo material ou físico e uma existência não material, entendida como alma, sujeito, consciência ou mente.
É fácil perceber que temos um corpo e que a consciência desse corpo parece ser algo distinto.
Assim eu posso distinguir a mão, que eu vejo, e a ideia que tenho dela em minha mente. Agora mesmo o leitor deve ter diante de si um computador que é um objeto e tem consciência de que ele existe, porque pode percebê-lo pelos seus sentidos corporais. Ou seja, a consciência só existe por causa do corpo e as sensações que ele proporciona.
Outro erro corriqueiro é crer que o corpo representa algo inferior, imperfeito, impuro ou mau e deveria ser controlado a qualquer preço. A prática do autoflagelo, e que existe até hoje em muitas religiões é um exemplo disso.
Essa depreciação do corpo em relação a alma, encobria muitas injustiças, como no período colonial brasileiro, em que os padres se preocupavam apenas em converter os escravos ao catolicismo para salvar suas almas. Os padecimentos corporais que eles suportavam eram considerados naturais, ou sem importância, perto da imortalidade de uma alma salva.
Algo parecido acontece atualmente, quando muitas pessoas se conformam com o sofrimento, fome, falta de moradia, de tratamento médico, de educação, acreditando que serão recompensadas em outra vida. Trata-se de um pensamento com raízes antigas, ancoradas no cristianismo e na Filosofia.
Na Filosofia de Sócrates, por exemplo, o corpo não era objeto principal de preocupação, mas sim a alma, entendida como aquela que se serve do corpo. Escolas filosóficas posteriores, como os epicuristas e estóicos, reavaliaram o tema, o que tornou o corpo um motivo de cuidado integrado à alma.
Na Filosofia cristã da época medieval o corpo é objeto de constante preocupação. Santo Agostinho enfatizou a necessidade de conhecer as debilidades corporais. A “carne” era o corpo de desejo, portanto prestes a pecar. A sexualidade passa a ser estendida do corpo aos pensamentos, sobre os quais era preciso estar sempre atento.
- Vocês poderiam me ajudar a chegar ao outro lado?
Ao que um dos monges respondeu, enquanto já seguia água adentro:
- Volte para onde veio e aguarde a correnteza diminuir, nós não podemos trair nossos votos.
O outro monge, que vinha logo atrás, pegou a jovem no colo e levou-a em segurança até o outro lado.
Eles continuaram seu caminho e numa certa altura do caminho o primeiro deles não agüentou e disparou:
- Como pode você quebrar os seus votos de jamais tocar em uma mulher e continuar caminhando assim ao meu lado, como se nada tivesse acontecido?
E ele respondeu:
Eu a deixei lá atrás, mas você ainda a leva no seu pensamento. Quem fez o mal? Quem fez o bem? Mais grave do que trair os votos é trair a si mesmo.
A modernidade mudou alguns termos, mas a divisão permaneceu. Para Descartes, não temos como ter certeza se temos realmente um corpo, mas temos certeza de nossas dúvidas, e como a dúvida é um pensamento, só por meio dele sabemos que existimos: “penso, logo existo”. Na filosofia cartesiana o corpo era uma extensão da alma, como uma máquina:
Merleau-Ponty contrapôs ao corpo-máquina de Descartes, a noção de corpo-organismo, entendida como uma fusão entre a alma e corpo em um organismo vivo. Mesmo assim o sujeito pensante permaneceu como preocupação essencial.
Analisando a história, o filósofo francês Michel Foucault demonstrou que houve uma mudança de abordagem do corpo. Até o século XVIII o poder soberano era exercido sobre o corpo através de suplícios e penas. Podemos citar como o exemplo mais marcante disso no Brasil, o esquartejamento de Tiradentes.
Entretanto, esse sistema de castigos era tremendamente dispendioso e, com o tempo, o poder soberano deu lugar ao poder disciplinar. Assim, se criou uma tecnologia do corpo humano, cujo principal objetivo era tornar o corpo obediente, útil e produtivo para a sociedade, por meio do trabalho. Nessa época nasceram as quatro organizações disciplinadoras modernas, a prisão, a fábrica, a escola e o hospital, todas empenhadas na sujeição do corpo.
As pesquisas modernas tendem a reduzir o comportamento, os sentimentos e até os pensamentos humanos a reações químicas processadas no corpo. Se por um lado isso acaba de vez com a dicotomia corpo/sujeito, por outro lado afirma um determinismo sem precedentes para o homem, colocando em risco sua possibilidade de liberdade.
O fato é que o corpo, em sua complexidade material como sentimento e consciência, permanece como mistério, devido a dificuldade de controlar pesquisas que investiguem a interferência da vontade sobre os processos químicos e biológicos.
Como conhecer algo que quando lembramos já mudou? O si mesmo que é o corpo só pode ser pensado inédito, sendo, vivendo e nunca dito.
Aprisionado por verdades produzidas na ciência, na educação, na política e na mídia, torna-se urgente uma filosofia do corpo que se traduza em trabalhos de liberdade que retomem o protagonismo do corpo sobre ele mesmo. A resistência do corpo se faz na invenção de modos de vida originais e não massificados, cada vez mais diferenciados, na construção de novos valores e numa certa retomada pelo encantamento potencializador do mundo, esquecidos pela ciência e pela filosofia moderna.
REFERÊNCIAS:
DESCARTES, R. Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1979.
É fácil perceber que temos um corpo e que a consciência desse corpo parece ser algo distinto.
Assim eu posso distinguir a mão, que eu vejo, e a ideia que tenho dela em minha mente. Agora mesmo o leitor deve ter diante de si um computador que é um objeto e tem consciência de que ele existe, porque pode percebê-lo pelos seus sentidos corporais. Ou seja, a consciência só existe por causa do corpo e as sensações que ele proporciona.
Outro erro corriqueiro é crer que o corpo representa algo inferior, imperfeito, impuro ou mau e deveria ser controlado a qualquer preço. A prática do autoflagelo, e que existe até hoje em muitas religiões é um exemplo disso.
Essa depreciação do corpo em relação a alma, encobria muitas injustiças, como no período colonial brasileiro, em que os padres se preocupavam apenas em converter os escravos ao catolicismo para salvar suas almas. Os padecimentos corporais que eles suportavam eram considerados naturais, ou sem importância, perto da imortalidade de uma alma salva.
Algo parecido acontece atualmente, quando muitas pessoas se conformam com o sofrimento, fome, falta de moradia, de tratamento médico, de educação, acreditando que serão recompensadas em outra vida. Trata-se de um pensamento com raízes antigas, ancoradas no cristianismo e na Filosofia.
Na Filosofia de Sócrates, por exemplo, o corpo não era objeto principal de preocupação, mas sim a alma, entendida como aquela que se serve do corpo. Escolas filosóficas posteriores, como os epicuristas e estóicos, reavaliaram o tema, o que tornou o corpo um motivo de cuidado integrado à alma.
Na Filosofia cristã da época medieval o corpo é objeto de constante preocupação. Santo Agostinho enfatizou a necessidade de conhecer as debilidades corporais. A “carne” era o corpo de desejo, portanto prestes a pecar. A sexualidade passa a ser estendida do corpo aos pensamentos, sobre os quais era preciso estar sempre atento.
* * *
Conta uma parábola que dois monges cristãos, que haviam feito voto de castidade, foram atravessar um riacho. Chovia muito e a correnteza estava muito forte. Encontraram no rio uma bela jovem que hesitava em atravessar. Ela se dirigiu a um deles e disse, - Vocês poderiam me ajudar a chegar ao outro lado?
Ao que um dos monges respondeu, enquanto já seguia água adentro:
- Volte para onde veio e aguarde a correnteza diminuir, nós não podemos trair nossos votos.
O outro monge, que vinha logo atrás, pegou a jovem no colo e levou-a em segurança até o outro lado.
Eles continuaram seu caminho e numa certa altura do caminho o primeiro deles não agüentou e disparou:
- Como pode você quebrar os seus votos de jamais tocar em uma mulher e continuar caminhando assim ao meu lado, como se nada tivesse acontecido?
E ele respondeu:
Eu a deixei lá atrás, mas você ainda a leva no seu pensamento. Quem fez o mal? Quem fez o bem? Mais grave do que trair os votos é trair a si mesmo.
* * *
A modernidade mudou alguns termos, mas a divisão permaneceu. Para Descartes, não temos como ter certeza se temos realmente um corpo, mas temos certeza de nossas dúvidas, e como a dúvida é um pensamento, só por meio dele sabemos que existimos: “penso, logo existo”. Na filosofia cartesiana o corpo era uma extensão da alma, como uma máquina:
[...] o corpo de um homem vivo difere de um morto como um relógio, ou outro autômato (ou seja, outra máquina que se mova por si mesma), quando está montado e tem em si o princípio corporal dos movimentos para os quais foi construído, com tudo o que se exige para a sua ação, distingue-se do mesmo relógio ou da outra máquina quando está quebrada e o princípio de seu movimento para de atuar (DESCARTES, 1979, p. 102)
Merleau-Ponty contrapôs ao corpo-máquina de Descartes, a noção de corpo-organismo, entendida como uma fusão entre a alma e corpo em um organismo vivo. Mesmo assim o sujeito pensante permaneceu como preocupação essencial.
Analisando a história, o filósofo francês Michel Foucault demonstrou que houve uma mudança de abordagem do corpo. Até o século XVIII o poder soberano era exercido sobre o corpo através de suplícios e penas. Podemos citar como o exemplo mais marcante disso no Brasil, o esquartejamento de Tiradentes.
Entretanto, esse sistema de castigos era tremendamente dispendioso e, com o tempo, o poder soberano deu lugar ao poder disciplinar. Assim, se criou uma tecnologia do corpo humano, cujo principal objetivo era tornar o corpo obediente, útil e produtivo para a sociedade, por meio do trabalho. Nessa época nasceram as quatro organizações disciplinadoras modernas, a prisão, a fábrica, a escola e o hospital, todas empenhadas na sujeição do corpo.
As pesquisas modernas tendem a reduzir o comportamento, os sentimentos e até os pensamentos humanos a reações químicas processadas no corpo. Se por um lado isso acaba de vez com a dicotomia corpo/sujeito, por outro lado afirma um determinismo sem precedentes para o homem, colocando em risco sua possibilidade de liberdade.
O fato é que o corpo, em sua complexidade material como sentimento e consciência, permanece como mistério, devido a dificuldade de controlar pesquisas que investiguem a interferência da vontade sobre os processos químicos e biológicos.
Como conhecer algo que quando lembramos já mudou? O si mesmo que é o corpo só pode ser pensado inédito, sendo, vivendo e nunca dito.
Aprisionado por verdades produzidas na ciência, na educação, na política e na mídia, torna-se urgente uma filosofia do corpo que se traduza em trabalhos de liberdade que retomem o protagonismo do corpo sobre ele mesmo. A resistência do corpo se faz na invenção de modos de vida originais e não massificados, cada vez mais diferenciados, na construção de novos valores e numa certa retomada pelo encantamento potencializador do mundo, esquecidos pela ciência e pela filosofia moderna.
REFERÊNCIAS:
DESCARTES, R. Os Pensadores. São Paulo: Abril, 1979.
Assinar:
Postagens (Atom)

