sexta-feira, 1 de junho de 2012

O amor é uma falácia



O amor é uma falácia

Adaptação do texto de Max Shulman.


Narrador: Eu era frio e lógico. Sutil, calculista, perspicaz, arguto e astuto – era tudo isso – e acreditem - modesto. Tinha o cérebro poderoso como um motor de Fórmula 1, preciso como uma balança de farmácia, penetrante como um bisturi. E tinha - imaginem só - apenas 17 anos. Não é comum ver alguém tão jovem com um intelecto tão gigantesco. Tomem, por exemplo, o caso do meu colega de sala, Pedro.
Mesma idade, mesma formação, mas burro como uma vaca. Um bom sujeito, compreendam, mas sem nada lá em cima. Do tipo emocional. Instável, impressionável. Pior que tudo, dado a manias. Eu afirmo que a mania é a própria negação da razão. Deixar-se levar por qualquer nova moda que apareça, entregar-se a alguma idiotice só porque os outros a seguem, isto, para mim, é o cúmulo da loucura. Pedro, no entanto, não pensava assim.
Certa tarde encontrei-o deitado com tal expressão de sofrimento no rosto, se contorcendo, que o meu diagnóstico foi imediato: apendicite!
Mateus: Não se mexa. Vou chamar o médico.
Pedro: (balbuciou): Aiiii... Aiiiii... iPhone!
Narrador: Interrompi minha corrida.
Mateus: iPhone?
Pedro: (gemendo): Quero um celular da Apple.
Narrador: Percebi que o seu problema não era físico, mas mental.
Mateus: Por que você quer um iPhone?
Pedro: (gritando e dando tapas na própria cabeça): Eu devia ter adivinhado que ia precisar de um! Como um idiota, gastei todo o meu dinheiro e agora estou liso!
Mateus (incrédulo): Quer dizer que você está sofrendo por isto?
Pedro: Todos os alunos descolados da escola têm! Onde você tem andado?
Mateus: Na biblioteca, um lugar não muito frequentado pelos alunos descolados da escola.
Narrador: Ele levantou e pôs-se a andar de um lado para o outro.
Pedro: O som é perfeito, a cam é perfeita, preciso conseguir um iPhone. Preciso!
Mateus: Por que, Pedro? Veja a coisa de maneira racional. Pense! Enfiar um fone dentro do ouvido, para ouvir música muito alta o dia inteiro, prejudica a audição. Pode até te deixar surdo! Além disso, esses alunos descolados vivem tentando enviar e receber mensagens durante a aula, o que só prejudica a atenção deles.
Pedro: (com impaciência): Você não compreende. É o que todos estão usando. Você não quer andar na moda?
Mateus (sinceramente): Não.
Pedro: Pois eu, sim! Faria tudo para ter um iPhone. Tudo!
Narrador: Aquele instrumento de precisão, meu poderoso cérebro, começou a funcionar a todo vapor.
Mateus: (examinando o rosto dele com os olhos semicerrados): Tudo?
Pedro: (em um tom dramático): Tudo!
Narrador: Alisei o meu queixo e comecei a pensar. Eu, por acaso, sei onde conseguir um iPhone. Meu irmão já quis me dar um, mas eu não me interesso por essas parafernálias tecnológicas . Acho que se eu pedisse ele não iria me negar.
E, também por acaso, Pedro tinha algo que eu queria. Não era dele, exatamente, mas pelo menos ele tinha alguns direitos sobre ela. Refiro-me à Jéssica. Eu há muito desejava Jéssica. Apresso-me a esclarecer que meu desejo não era de natureza emotiva. A moça, não há dúvidas, despertava paixões. Era daquelas que decretavam feriado nacional por onde quer que passasse. Todos paravam para vê-la passar. Até mesmo - ou principalmente - as mulheres, se corroendo de inveja... mas eu não era daqueles que se deixam dominar pelo coração. Desejava Jéssica para fins engenhosamente calculados e inteiramente cerebrais.
Meu sonho era cursar Direito. Dali a alguns anos estaria me iniciando na profissão. Eu sabia muito bem a importância que tinha a esposa na vida e na carreira de um advogado. Os advogados de sucesso, segundo minhas observações, eram quase sempre casados com mulheres bonitas, graciosas e inteligentes. Com uma única exceção, Jéssica preenchia perfeitamente todos esses requisitos.
Ela era linda. Graciosa também era. Por graciosa, quero dizer, cheia de graças sociais. Finíssima! Tinha o porte ereto, a naturalidade no andar e a elegância que deixavam transparecer a melhor das linhagens. À mesa, suas maneiras eram finíssimas. Eu já vira Jéssica na cantina da escola comendo a especialidade da casa - um sanduíche natural de frango, com alface e molho - sem nem sequer umedecer os dedos.
Inteligente ela não era. Na verdade, tendia para o oposto. Mas eu confiava que, sob minha tutela, haveria de tornar-se brilhante. Pelo menos, valia a pena tentar. Afinal de contas, é mais fácil fazer uma moça bonita e burra ficar inteligente do que uma moça feia e inteligente ficar bonita.
Mateus: Pedro! Você ama Jéssica?
Pedro: Acho-a uma boa garota, mas não sei se chamaria isso de amor. Por quê?
Mateus: Você tem alguma espécie de arranjo formal com ela? Quero dizer, vocês saem exclusivamente um com o outro?
Pedro: Não. Ficamos juntos, quase sempre, mas saímos os dois com outros amigos também. Por quê?
Mateus: Existe algum outro homem de quem ela goste de maneira especial?
Pedro: Que eu saiba, não. Por quê?
Mateus (fazendo que sim, com a cabeça, satisfeito): Em outras palavras, a não ser por você, o campo está livre, é isto?
Pedro: Acho que sim... Que papo estranho é esse?
Mateus: (com inocência): Nada, nada.
Pedro: Onde é que você vai?
Mateus: Vou para casa.
Pedro: (apegando-se com força ao meu braço): Escute, em casa, será que você não poderia pedir dinheiro ao seu pai, e me emprestar para comprar o iPhone?
Mateus: (piscando o olho misteriosamente): Posso até fazer mais do que isso. Até segunda.
Narrador: Peguei minha bolsa e saí. O final de semana demorou a passar. Eu estava ansioso para encontrar Pedro: na segunda e quando cheguei na escola fui logo falar com ele. Abri a bolsa e tirei o iPhone que ganhei do meu irmão.
Mateus: Olhe.
Pedro: Caraca!
Narrador: Pedro exclamou, com reverência. Enquanto colocava o fone de ouvido e explora os recursos do aparelho.
Pedro: (repetindo umas quinze ou vinte vezes): Caraca! Caraca! Caraca!...
Mateus: Você gostaria de ficar com ele?
Pedro: (gritando e apertando a engenhoca contra o peito): Claro, claro!...
Narrador: Em seguida, seus olhos tomaram um ar precavido.
Pedro: O que você quer em troca?
Mateus: A sua ficante.
Pedro: (sussurrando, horrorizado): Jéssica? Você quer a Jéssica?
Mateus: Isto mesmo...
Narrador: Ele tirou o fone do ouvido, enrolou no iPhone e me devolveu bruscamente.
Pedro: (resoluto): Nunca.
Narrador: Eu dei de ombros.
Mateus: OK. Se você não quer ser descolado, o problema é seu...
Narrador: Sentei numa cadeira, coloquei o iPhone na mesa e fingi que lia um livro, mas continuei espiando Pedro, com o rabo dos olhos. Aquele era um homem partido em dois. Primeiro olhava o iPhone, com a expressão de uma criança de rua à porta de um restaurante. Depois dava-lhe as costas e cerrava os dentes, altivo. Depois, voltava a olhar para o aparelho, com uma expressão ainda maior de desejo no rosto. Depois, virava-se outra vez, mas agora sem tanta resolução. Sua cabeça ia e vinha, o desejo aumentando, a resolução “despencando”. Finalmente não se virou mais; ficou olhando para o iPhone com pura lascívia. O desejo falara mais alto.
Pedro: (balbuciando): Não é como se eu estivesse apaixonado por Jéssica ou mesmo fosse namorado dela, ou coisa parecida.
Mateus: (murmurando): Isso mesmo...
Pedro: Afinal, Jéssica significa o que para mim, ou eu para ela?
Mateus: Nada.
Pedro: Foi uma coisa banal. Nos divertimos um pouco, só isso... ficamos, às vezes.
Mateus: Ligue o iPhone.
Narrador: Entreguei o aparelho e ele obedeceu.
Pedro: (contente): O touch screen é incrível!
Narrador: Levantei da cadeira e perguntei, estendendo a mão:
Mateus: Negócio feito?
Pedro: (engolindo em seco e apertando a minha mão): Feito.
Narrador: Saí com Jéssica pela primeira vez na tarde seguinte. O primeiro programa teria o caráter de uma pesquisa preparatória. Eu desejava avaliar o trabalho que me esperava para elevar a sua mente ao nível desejado. Levei-a para comer pizza e ao cinema.
Jéssica: Puxa, que pizza massa!
Jéssica: Nossa, que filme massa!
Narrador: Levei-a para casa.
Jéssica: Puxa, foi um programa massa! Boa noite.
Narrador: Voltei para casa com o coração pesado. Eu subestimara gravemente as proporções da minha tarefa. A ignorância daquela moça parecia aterradora. E não seria o bastante apenas instruí-la. Era preciso, antes de tudo, ensiná-la a pensar. O empreendimento a que eu me propusera era simplesmente gigantesco, e a princípio me vi inclinado a devolvê-la a Pedro Mas aí comecei a pensar nos seus dotes físicos generosos, no olhar de inveja que ela despertava nos homens e mulheres quando “desfilava” pelos corredores da escola, na maneira como entrava numa sala ou segurava uma faca e um garfo, e aí, decidi tentar novamente.
Procedi, como sempre, sistematicamente. Decidi dar-lhe um curso de Lógica. Acontece, que no ano anterior eu já havia tido aulas de Filosofia e de Lógica formal, e, portanto, tinha tudo na ponta da língua quando a fui buscar para o segundo encontro:
Mateus: Jéssica, esta tarde iremos até o parque conversar.
Jéssica: Que massa!
Narrador: Uma coisa deve ser dita em favor da moça: seria difícil encontrar alguém tão bem disposta para tudo. Fomos até o parque, nos sentamos debaixo de uma grande árvore, e ela me olhou cheia de expectativa.
Jéssica: Sobre o que vamos conversar?
Mateus: Sobre Lógica.
Narrador: Ela pensou durante alguns segundos e depois sentenciou:
Jéssica: Massa! Massa!
Mateus: (comecei, limpando a garganta). A Lógica é o estudo do raciocínio. Se quisermos pensar corretamente, é preciso antes saber identificar as falácias ou sofismas, os erros mais comuns do nosso pensamento. É o que vamos abordar hoje.
Jéssica: (exclamou, sacudindo as mãos de alegria): Massa!
Narrador: Ela tinha a mesma expressão de perspicácia que se esperaria de uma foca diante da possibilidade de ganhar um peixe. Fiz uma careta de desânimo, mas segui em frente, com coragem.
Mateus: Vamos primeiro examinar uma falácia chamada generalização não qualificada.
Jéssica (piscando os olhos com animação): Vamos.
Mateus: Generalização não qualificada quer dizer um argumento baseado numa generalização. Por exemplo: o exercício é bom, portanto todos devem se exercitar.
Jéssica: (fervorosamente): Eu estou de acordo. Quer dizer, o exercício é maravilhoso. Isto é, desenvolve o corpo e tudo.
Mateus (com ternura): Jéssica, esse argumento é uma falácia. Dizer que o exercício é bom é uma generalização não qualificada. Por exemplo: para quem sofre do coração, o exercício é ruim. Muitas pessoas têm ordens de seus médicos para não se exercitarem. É preciso qualificar a generalização. Deve-se dizer: o exercício é geralmente bom, ou é bom pra maioria das pessoas. Senão, está se cometendo uma generalização não qualificada. Compreendeu?
Jéssica: Não. Mas isto é massa. Quero mais. Quero mais! Fala! Fala!
Mateus: Será melhor se você parar de puxar a manga do meu casaco! Em seguida, abordaremos uma falácia muito comum chamada generalização apressada. Ouça com atenção: você não sabe falar francês, eu não sei falar francês, Pedro não sabe falar francês. Devo, portanto concluir que ninguém na escola sabe falar francês.
Jéssica: (espantada): É mesmo? Ninguém? Nem uma pessoa?
Narrador: Reprimi a minha impaciência...
Mateus: É uma falácia, Jéssica. Essa generalização foi feita de maneira apressada. Não há exemplos suficientes para justificar essa conclusão.
Narrador: Ela sorriu encantadora, mas eu pensei: mas que cara de retardada!
Jéssica: (animada): Você conhece outras falácias? Isto é melhor do que dançar!
Narrador: Esforcei-me por conter uma onda de desespero que ameaçava me invadir. Não estava conseguindo nada com aquela moça. Absolutamente nada! Mas não sou outra coisa senão persistente. Quase teimoso. Continuei:
Mateus: A seguir, vem a ignorância de causa. Ouça: não vamos chamar o Flávio para ir à praia. Toda vez que ele vai junto, começa a chover.
Jéssica: Eu conheço uma pessoa exatamente assim! Uma moça da minha rua, Rafaela. Nunca falha. Toda a vez que ela vai junto à praia...
Mateus: (interrompendo com energia): Jéssica! Isso é uma falácia. Não é a Rafaela que causa a chuva. Ela não tem nada a ver com a chuva. Você estará incorrendo em ignorância de causa se puser a culpa na Rafaela.
Jéssica: (contrita): Nunca mais farei isso. Você está bravo comigo?
Mateus (suspirei): Não, Jéssica. Não estou bravo.
Narrador: Talvez fosse mais fácil ensinar Lógica a um chimpanzé.
Jéssica: Então conte outra falácia.
Mateus: Muito bem. Vamos experimentar as premissas contraditórias. Se Deus pode fazer qualquer coisa, então pode criar uma pedra tão pesada que Ele mesmo não conseguirá levantar!
Jéssica (imediatamente): É claro...
Mateus: (exclamando): Mas, se Ele pode fazer tudo, então Ele também pode levantar a pedra!
Jéssica: (pensativa): É mesmo Bem, então, acho que Ele não pode fazer a tal pedra.
Mateus: Mas Ele pode fazer tudo.
Narrador: Ela coçou sua cabeça linda e vazia. Aquele cérebro poderia ser vendido como “zero quilômetros”. Jamais fora usado!
Jéssica: Estou confusa.
Mateus: É claro que está. Quando as premissas de um argumento se contradizem, não pode haver argumento. Se existe uma força irresistível, não pode existir um objeto irremovível. Compreendeu?
Jéssica: (entusiasmada): Não, mas conte outra destas histórias massas. Estou adorando!
Narrador: Consultei o relógio.
Mateus: Acho melhor pararmos por aqui. Levarei você para casa, e lá você pensará no que aprendeu hoje. Teremos outra sessão amanhã à tarde.
Narrador: Deixei-a em casa, onde ela me assegurou que a tarde fora realmente massa, e voltei completamente desanimado para o meu quarto. Por alguns segundos, brinquei com a ideia de procurar Pedro e dizer que podia ter sua ficante de volta.
Era evidente que meu projeto estava condenado ao fracasso. Aquela moça tinha, simplesmente, uma cabeça totalmente à prova de lógica.
Mas logo reconsiderei. Perdera uma tarde, por que não perder outra? Quem sabe se em alguma parte daquela cratera de vulcão adormecido, que era a mente de Jéssica, algumas “brasas” de inteligência ainda estivessem vivas? Talvez, de alguma maneira, eu ainda conseguisse abaná-las até que flamejassem... As perspectivas não eram das mais animadoras, mas acabei decidindo e tentei outra vez.
Sentado sob a mesmo árvore, na tarde seguinte, disse:
Mateus: Nossa primeira falácia desta tarde se chama por misericórdia.
Narrador: Ela estremeceu de emoção.
Mateus: Ouça com atenção. Um homem vai pedir emprego. Quando o patrão pergunta quais são as suas qualificações, o homem responde que tem uma mulher e seis filhos em casa, que a mulher é aleijada, as crianças não têm o que comer, não têm o que vestir, nem o que calçar, e vive em um barraco que pode desabar durante as chuvas.
Narrador: Uma lágrima desceu por cada uma das faces de Jéssica.
Jéssica: (soluçando e quase chorando): Isso é horrível, horrível!
Mateus: É horrível, mas não é argumento. O homem não respondeu à pergunta do patrão sobre suas qualificações. Em vez disso, tentou despertar a sua compaixão. Cometeu a falácia Por Misericórdia. Compreendeu?
Jéssica: (entre soluços): Você tem um lenço?
Narrador: Dei-lhe o lenço e fiz o possível para não gritar de desespero, enquanto ela enxugava os olhos.
Mateus (controlando o tom da voz): A seguir discutiremos a falsa analogia. Eis um exemplo: deviam permitir aos estudantes consultar seus livros durante as provas. Afinal, os cirurgiões levam radiografias para se guiarem durante uma operação, os advogados consultam seus papéis durante um julgamento, os construtores têm plantas e projetos que os orientam na construção de uma casa. Por que, então, não deixar que os alunos recorram a seus livros durante uma prova?
Jéssica (entusiasmada): Pois olhe esta é a ideia mais massa que eu já ouvi na minha vida! Você é um gênio!
Mateus (com impaciência): Jéssica o argumento é falacioso. Os cirurgiões, os advogados e os construtores não estão fazendo testes para ver o que aprenderam, e os estudantes sim. As situações são completamente diferentes e não se pode fazer analogia entre elas. Não tem jeito de comparar uma situação com a outra, entendeu?
Jéssica: Continuo achando a ideia massa.
Mateus: (murmurando e fazendo uma meia careta): Droga! A seguir, tentaremos a falácia hipótese contrária ao fato.
Jéssica: Ah! Essa parece ser boa!
Mateus: Ouça: Se não fosse pela princesa Isabel, a escravidão jamais seria abolida no Brasil.
Jéssica (concordando e sacudindo vigorosamente a cabeça): É mesmo, é mesmo! Brilhante! Você viu a novela? Eu fiquei revoltada como os negros eram tratados. Aquele ator, o Caio Castro é tudo de bom! Ele me fez suspirar!
Mateus: (friamente): Se você conseguir esquecer o Caio Castro por alguns minutos, gostaria de lembrar que o que eu disse é uma falácia. A escravidão poderia ter acabado de alguma outra maneira. Talvez outra pessoa como o Dom Pedro II fizesse isto. Muita coisa poderia acontecer. Não se pode partir de uma hipótese baseada no acaso e tirar dela qualquer conclusão lógica.
Jéssica: Eles deveriam botar o Caio Castro em mais novelas. Ele é lindo!
Narrador: A impaciência voltou a me torturar. Pensei: como um ser humano pode ser tão ignorante? Decidi: mais uma tentativa! Mas só mais uma. A última! Há um limite ao que um homem pode suportar.
Mateus: A próxima falácia é envenenar o poço.
Jéssica: Credo!
Mateus: Dois homens vão começar um debate. O primeiro se levanta e diz: "Meu oponente é um mentiroso conhecido. Não é possível acreditar numa só palavra do que ele disser". Agora, Jéssica, pense bem. O que está errado?
Narrador: Vi-a enrugar a sua linda testa, concentrando-se. De repente, um brilho de inteligência - o primeiro que eu vira - surgiu em seus olhos.
Jéssica: (com indignação): Não é justo! Isso não é nada justo. Que chance tem o segundo homem se o primeiro diz que é um mentiroso, antes mesmo dele começar a falar?
Mateus: (gritei exultante): Exato! Cem por cento exato! Não é justo. O primeiro homem envenenou o poço antes que os outros pudessem beber dele. Atou as mãos do adversário antes da luta começar... Jéssica: estou orgulhoso de você!
Jéssica: (murmurando, envergonhada): Ora....
Mateus: Agora vejamos a petição de princípio. Por exemplo: o cigarro prejudica a saúde porque faz mal ao organismo.
Jéssica (confiante): Isto não explica nada, é como se alguém dissesse prejudica porque prejudica.
Mateus: (sorrindo): Exatamente! Este sofisma toma como verdade justamente o que está em discussão. Como vê, minha querida, não é tão difícil. Só requer concentração. É só pensar, examinar, avaliar. Venha, vamos repassar tudo que aprendemos até agora.
Jéssica: (abanando as mãos): Vamos lá!
Narrador: Animado pela descoberta de que Jéssica não era uma cretina total, comecei uma longa e paciente revisão de tudo que dissera até ali. Sem parar, citei exemplos, apontei falhas, martelei “lógica” sem dar tréguas. Era como cavar um túnel. A princípio, apenas trabalho, suor e escuridão. Não tinha ideia de quando veria a luz, ou mesmo se a veria. Mas insisti. Dei duro, cavouquei até com as unhas, e finalmente fui recompensado. Descobri uma fresta de luz. E a fresta foi se alargando até que, finalmente, o sol jorrou para dentro do túnel, clareando tudo. Jéssica finalmente parecia ter sido apresentada ao “conhecimento”. Levara cinco tardes de trabalho forçado, mas valera a pena. Eu transformara Jéssica em uma lógica, e a ensinara a pensar. Minha tarefa chegara a bom termo. Fizera dela uma mulher digna de mim. Somente agora ela estava apta a ser minha esposa, uma anfitriã perfeita para as minhas muitas mansões, uma mãe adequada para meus filhos privilegiados.
Não se deve deduzir que eu não sentisse amor pela moça. Muito pelo contrário. Na mitologia grega, Pigmaleão amava a mulher perfeita que moldara para si; eu também amava a minha doce Jéssica, que moldei com o suor do meu conhecimento. Decidi comunicar-lhe os meus sentimentos no nosso encontro seguinte. Chegara a hora de mudar nossas relações, de acadêmicas para românticas.
Mateus: Jéssica: hoje não falaremos de falácias.
Jéssica: (desapontada): Puxa!
Mateus: Minha querida (favorecendo-a com um sorriso) hoje é a quinta tarde em que estamos juntos. Nos demos esplendidamente bem. Não há dúvidas de que formamos um bom par.
Jéssica: Generalização apressada (exclamou alegremente).
Mateus: Como?
Jéssica: Generalização Apressada. Como é que você pode dizer que formamos um bom par baseado em apenas cinco encontros?
Narrador: Dei uma risada, divertido. Aquela criança adorável aprendera bem suas lições.
Mateus: (dando um tapinha tolerante em sua mão) Minha querida, cinco encontros são o bastante. Afinal, não é preciso comer um bolo inteiro para saber se ele é bom ou não.
Jéssica: Falsa analogia. Eu não sou um bolo, sou uma pessoa. Não se pode comparar duas situações completamente diferentes e chegar à uma conclusão análoga!
Narrador: Dei outra risada, mas agora já não tão divertida. Essa criança adorável talvez tivesse aprendido sua lição bem até demais. Resolvi mudar de tática. Obviamente, o indicado era uma declaração de amor simples, direta e convincente. Fiz uma pausa, enquanto meu cérebro privilegiado selecionava as palavras adequadas. Depois comecei:
Mateus: Jéssica, eu a amo. Você é tudo no mundo para mim... é a lua e as estrelas... as constelações no firmamento. Por favor, minha querida, diga que será minha namorada, senão minha vida não terá mais sentido. Enfraquecerei, recusarei a comida, vagarei pelo mundo aos tropeções, me tornarei um fantasma de olhos vazios...
Narrador: Pronto! Eu pensei: está liquidado o assunto. Agora ela cai em meus braços!
Jéssica: Por misericórdia!
Narrador: Cerrei os dentes. Eu não era mais o Pigmaleão da mitologia; era o Dr. Frankenstein, e o monstro que eu havia criado me tinha pela garganta. Lutei desesperadamente contra o pânico que ameaçava me invadir. Era preciso manter a calma a qualquer preço.
Mateus: (forçando um sorriso): Bem, Jéssica não há dúvidas que você aprendeu bem as falácias.
Jéssica: Aprendi mesmo!
Mateus: E quem foi que as ensinou a você, Jéssica?
Jéssica: Foi você.
Mateus: Isso mesmo. E portanto você me deve alguma coisa, não é mesmo, minha querida? Se não fosse por mim, você nunca saberia o que é uma falácia...
Jéssica: Hipótese contrária ao fato. Eu poderia descobrir através de outra pessoa, ou até mesmo sozinha, algum dia. Não se pode tirar conclusões definitivas baseadas em acasos.
Narrador: Enxuguei o suor do rosto, já lívido – o desespero afigurava-se nítido em meus olhos.
Mateus: (com voz rouca): Jéssica você não deve levar tudo ao pé da letra. Estas coisas só têm valor acadêmico. Você sabe muito bem que o que aprendemos na escola nada tem a ver com a vida.
Jéssica (brincando e sacudindo o dedo na minha direção): Generalização não qualificada. Quer que eu diga o porquê?
Narrador: Foi o bastante! Levantei-me num salto, berrando como um touro indomável:
Mateus: (trovejei): Você vai ou não vai me namorar?
Jéssica: Não, eu não vou.
Mateus: Por que não?
Jéssica: Porque hoje à tarde prometi ao Pedro que seria a namorada dele.
Narrador: Quase caí para trás, fulminado por tamanha infâmia. Depois de prometer, depois de fecharmos negócio, depois de apertar a minha mão!
Mateus: (gritando e chutando a grama): Aquele safado! Você não pode sair com ele, Jéssica. É um mentiroso. Um traidor. Um rato.
Jéssica: Envenenar o poço! Que feio! E pare de gritar. Acho que gritar também deve ser uma falácia.
Narrador: Com uma admirável demonstração de força de vontade, modulei minha voz.
Mateus: Muito bem. Você é uma lógica. Vamos olhar as coisas de maneira lógica então. Como pode preferir o Pedro? Olhe para mim: um aluno brilhante, um intelectual formidável, um homem com o futuro assegurado. E veja Pedro um maluco, um boa-vida, um sujeito que nunca saberá se vai comer ou não no dia seguinte. Você pode me dar uma única razão lógica para namorar Pedro?
Jéssica: Posso, sim: ele tem um iPhone! A-do-ro!
Narrador: Ela saiu correndo para os braços do Pedro que se aproximava com o iPhone, colocou um dos fones no próprio ouvido, enquanto eu me culpava pela minha presunção.
Mateus: Amar é um grande erro, porque o amor é uma falácia.
Jéssica: (gritando de longe): Petição de princípio!
Fim

Atividades avaliativas:
Grupos de no máximo 5 alunos

Publique no comentário com o nome dos alunos e a turma.
1) Crie 2 exemplos diferentes para os tipo de falácias descritas no texto
2) Pesquise em jornais ou revistas pelo menos um exemplos de falácias. Publique o exemplo e a fonte de pesquisa.
3) Pesquise no Google pelo menos 2 tipos de falácias diferentes das que aparecem no texto.

Download FOUCAULT - Vigiar e Punir

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

Questões Filosofia Política: Maquiavel, Hobbes e Rousseau



1. (ENEM 2010) O príncipe, portanto, não deve se incomodar com a reputação de cruel, se seu propósito é manter o povo unido e leal. De fato, com uns poucos exemplos duros poderá ser mais clemente do que outros que, por muita piedade, permitem aos distúrbios que levem ao assassínio e ao roubo
MAQUIAVEL, N. O Príncipe. São Paulo. Martin Claret, 2009.

No século XVI, Maquiavel escreveu O Príncipe, reflexão sobre a monarquia e a função do governante. A manutenção da ordem social, segundo esse autor, baseava-se na

A) Inércia do julgamento de crimes polêmicos.
B) Bondade em relação ao comportamento dos mercenários.
C) Compaixão quanto à condenação de transgressões religiosas.
D) Neutralidade diante da condenação dos servos.
E) Conveniência entre o poder tirânico e o moral do príncipe.


2. (IFPE 2009) Sobre o pensamento político de Maquiavel pode-se afirmar:

A) Maquiavel reconhece, nem sempre claramente, os limites do conceito de bem e, por isso, não tenta reduzir o conhecimento político ao escopo de uma metafísica.
B) A harmonia ou a vida social sem conflito deve ser o fim da política, sob pena de condená-la ao âmbito do improfícuo.
C) A virtù designa o elemento central para a manutenção da ordem civil, pois ela transcreve a ação arbitrária do Estado contra os indivíduos.
D) Para Maquiavel, o Estado republicano, por ser o Estado ideal, poderia prescindir da coação.
E) Para Maquiavel, a legitimidade do príncipe é irrestrita pelo fato do seu poder emanar de Deus. 
3.   (Universidade da Amazônia – 2008)
Sobre o pensamento político, há inúmeras questões e respostas elaboradas ao longo da história. Das formulações mais célebres do pensamento político e seus autores, está correto dizer que: 
1-    para Jean-Jacques Rousseau, em sua obra o Leviatã, o Estado é comparado a uma criação monstruosa do homem, destinada a pôr fim à anarquia e ao caos da comunidade primitiva.
 2- para Thomas Hobbes, quando os interesses egoístas predominam, cada um se torna um lobo para o outro (homo homini lupus). As disputas provocam a guerra de todos contra todos (bellum omnium contra omnes), com graves prejuízos para a indústria, a agricultura, a navegação, o desenvolvimento da ciência e o conforto de todos.

3- Nicolau Maquiavel recusa a figura do bom governo encarnada no príncipe virtuoso, portador das virtudes cristãs. O príncipe precisa ter virtu, mas esta é propriamente política, referindo-se às qualidades do dirigente para tomar e manter o poder, mesmo que para isso deva usar a violência, a mentira, a astúcia e a força.
4- John Locke desenvolve uma teoria socialista que desmistificou a política liberal. Para ele, as relações fundamentais de toda sociedade humana são as relações de produção, que correspondem a um certo estágio das forças produtivas. 
São corretas as afirmativas:
A) 1, 2, 3 e 4. 
B) 2 e 4, somente. 
C) 1 e 3, somente.
D) 2 e 3, somente. 
E) 1 e 2 somente
4. Mas há sempre algum altruísmo nas pessoas. Serão valores embutidos em nossa cultura por um legado religioso? Ou um impulso inato, recebido da natureza ao nascer? Sangue, e rios de tinta, ainda não responderam a essa pergunta. No século 18, J. J. Rousseau, invertendo muitos séculos da visão pessimista do homem naturalmente pecador e mau, embutida na tradição cristã, substituiu-a por uma ideia oposta: a do homem que nasce virtuoso, e degenera na sociedade. É o "bom selvagem", uma das contribuições iniciais da descoberta do Brasil ao pensamento europeu.
Segundo o texto, J. J. Rousseau:
A) Afirmou que o homem é naturalmente pecador e mau, mas, devido à tradição cristão, quando nasce virtuoso, degenera na sociedade.
B) É o bom selvagem que contribuiu para a descoberta do Brasil.
C) Errou, ao inverter a visão da Igreja, que sempre acreditou ser o homem virtuoso, mas degenerador da sociedade.
D) Contradisse a tradição cristã, ao afirmar que o homem nasce virtuoso, e a sociedade o corrompe.
E) Contribuiu para a descoberta do Brasil, ao afirmar que o selvagem que aqui habitava era naturalmente bom.

5. (UFSM-PEIES) “Todavia, como é meu intento escrever coisa útil para os que se interessam, pareceu-me mais conveniente procurar a verdade pelo efeito das coisas, do que pelo que delas se possa imaginar. E muita gente imaginou repúblicas e principados que nunca serviram nem jamais foram reconhecidos como verdadeiros. Vai tanta diferença entre como se vive e o modo por que se deveria viver, que quem se preocupar com o que se deveria fazer em vez do que se faz aprende antes a ruína própria, do que o modo de se preservar.” (O Príncipe, de Maquiavel.) Nessa passagem, Maquiavel mostra que o domínio das ações humanas, no qual está incluída a política, deve ser concebido sob uma perspectiva realista.
Sobre essa maneira de conceber a política, é possível afirmar:
I. A política deve sempre ser pensada a partir de modelos ideais e da busca de soluções definitivas.
II. A política deve valorizar as experiências e os acontecimentos.
III. Concebe-se que a política deve se regular pelo modo como vivemos e não como deveríamos viver.
IV. Defende-se que a política deve ser orientada por valores universais e crenças sobre como deveria ser a vida em sociedade.
Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s)
a) I e II apenas.
b) I, II e III apenas.
c) II e III apenas.
d) III e IV apenas.
e) IV apenas.

6. (UFU) Muito citado, Nicolau Maquiavel é um dos maiores expoentes do Renascimento e sua contribuição determinou novos horizontes para a filosofia política.
 A respeito do seu conceito de virtú, analise as assertivas abaixo.
I. A virtú é a qualidade dos oportunistas, que agem guiados pelo instinto natural e irracional do egoísmo e almejam, exclusivamente, sua vantagem pessoal.
II. O homem de virtú é antes de tudo um sábio, é aquele que conhece as circunstâncias do momento oferecido pela fortuna e age seguro do seu êxito.
III. Mais do que todos os homens, o príncipe tem de ser um homem de virtú, capaz de conhecer as circunstâncias e utilizá-las a seu favor.
IV. Partidário da teoria do direito divino, Maquiavel vê o príncipe como um predestinado e a virtú como algo que não depende dos fatores históricos.
Assinale a ÚNICA alternativa que contém as assertivas verdadeiras.
a) I, II, e III.
b) II e III.
c) II e IV.
d) II, III e IV.

7. (UEL) “O direito de natureza, a que os autores geralmente chamam de jus naturale, é a liberdade que cada homem possui de usar seu próprio poder, da maneira que quiser, para a preservação de sua própria natureza, ou seja, de sua vida; e conseqüentemente de fazer tudo aquilo que seu próprio julgamento e razão lhe indiquem como meios adequados a esse fim.” (HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Abril Cultural, 1974).
Com base no texto e nos conhecimentos sobre o Estado de natureza em Hobbes, considere as afirmativas a seguir.
I. Todos os homens são igualmente vulneráveis à violência diante da ausência de uma autoridade soberana que detenha o uso da força.
II. Em cada ser humano há um egoísmo na busca de seus interesses pessoais a fim de manter a própria sobrevivência.
III. A competição e o desejo de fama passam a existir nos homens quando abandonam o Estado de natureza e ingressam no Estado social.
IV. O homem é naturalmente um ser social, o que lhe garante uma vida harmônica entre seus pares.
Estão corretas apenas as afirmativas:
a) I e II.
b) I e IV.
c) III e IV.
d) I, II e III.
e) II, III e IV.

8. (UFU) Thomas Hobbes escreveu que:
“Uma lei de natureza (lex naturalis) é um preceito ou regra geral, estabelecido pela razão, mediante o qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir sua vida ou privá-lo dos meios necessários para preservá-la, ou omitir aquilo que pense poder contribuir melhor para preservá-la”. (HOBBES, Thomas. Leviatã, São Paulo: Nova Cultural, 1988. Coleção “Os Pensadores”.p.79).
Assinale a alternativa correta.
a) A condição natural do homem é a perfeita harmonia em relação ao seu semelhante.
b) A lei primeira e fundamental da natureza é procurar a paz e segui-la.
c) No estado de natureza, os homens são governados pela razão divina.
d) No estado de natureza, o homem não tem direito a todas as coisas, por isso, ele tem segurança.

9. (UFSM) Na citação: “- Chama-se gato uma ligação elétrica clandestina entre a rede e uma residência. Usualmente, o gato infringe normas de segurança, porque é feito de pessoas não-especializadas. O choque elétrico, que pode ocorrer devido a um gato malfeito, é causado por uma corrente elétrica que passa através do corpo humano – ”.
Observamos no trecho um problema de ordem política e econômica. Considere a teoria política hobbesiana, que afirma:
“Onde não há propriedade não pode haver injustiça e onde não foi estabelecido um poder coercitivo, isto é, onde não há Estado, não há propriedade, pois todos os homens têm direito a todas as coisas”
Assim, a prática dos “gatos”, uma vez que vivemos sob o regime de um Estado, implíca uma
I. injustiça porque lesa o direito à propriedade privada.
II. injustiça porque as ligações clandestinas representam um perigo para as pessoas.
III. ilegalidade por desobedecer à legislação do Estado sobre a propriedade privada.
Está(ão) correta(s):
a) apenas I.
b) apenas II.
c) apenas III.
d) apenas I e II.
e) apenas I e III
Bom exercício!
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